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A FLECHA QUE O TEMPO NÃO QUEBROU

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Por: Mãe Gardênia d´Iansã


Figura 1 – Mãe Balbina Fonte: Elaborada pelo autor com o uso da inteligência artificial Gemini (2026)
Figura 1 – Mãe Balbina Fonte: Elaborada pelo autor com o uso da inteligência artificial Gemini (2026)

Nascida em 20 de janeiro de 1936, Mãe Balbina[1]  construiu, em silêncio e com coragem, uma das mais duradouras trajetórias da Umbanda cearense. Sua vida, marcada por missão, resistência e ancestralidade, permanece inscrita na história religiosa, cultural e social de Fortaleza, do Ceará e do Brasil, profundo sentido coletivo.


Tudo começa em vinte de janeiro de mil novecentos e trinta e seis, quando nascia Balbina Freitas de Lima. Hoje, se estivesse entre nós fisicamente, completaria noventa anos. O tempo segue seu curso implacável, transformando dias em décadas, mas a história preserva aquilo que se constrói com sentido e fundamento. Obras erguidas em vida, mesmo singelas, permanecem como marcas duradouras, registradas na memória coletiva e no silêncio respeitoso dos anos que atravessam gerações.


Nordestina, natural de Pacatuba, no Ceará, Mãe Balbina construiu toda sua trajetória em Fortaleza. Mulher pequena em estatura, gigante em coragem, carregou a força histórica das mulheres nordestinas. Em mil novecentos e cinquenta e seis, aos vinte anos de idade, recebeu um chamado raro, daqueles que o universo confia a poucos, exigindo entrega, coragem e fidelidade ao próprio destino, mesmo diante de adversidades sociais, religiosas e políticas intensas daquele período.


Foi nesse mesmo ano de mil novecentos e cinquenta e seis, que, sob orientação do Rei dos Índios, Caboclo Tapinaré, na rua Carvalho Júnior, bairro São João do Tauape, nasceu o Centro Espírita de Umbanda Jesus Maria José. O Brasil vivia tensões profundas, marcado por heranças escravistas recentes, intolerância religiosa e desafios estruturais à liberdade de culto que persistiam apesar das mudanças políticas do período republicano inicial.


Desbravar esse caminho exigiu firmeza espiritual e lucidez histórica, fundar um terreiro naquele contexto significava enfrentar preconceitos, perseguições e silenciamentos. “A percepção que índios e caboclos tinham do inimigo como seu opressor étnico adquire aqui a crueza de uma oposição racista que engloba todo os ‘homens de cor’ numa só categoria de inimigos a serem exterminados[2].”


Ainda assim, Mãe Balbina sustentou o espaço como território de acolhimento, fé e resistência cultural. Cada gira, cada ensinamento e cada gesto cotidiano consolidaram uma obra coletiva que ultrapassou indivíduos e atravessou gerações, transformando o terreiro em referência espiritual urbana permanente no Ceará, durante décadas sucessivas de atuação.


Não é acaso que datas e símbolos se alinham na trajetória dessa mulher. Vinte de janeiro, dedicado a Oxóssi, o Rei dos Caboclos, caçador de uma flecha só, marca também seu nascimento e o sentido de sua missão. O terreiro completa, em dois mil e vinte e seis, setenta anos de atividades ininterruptas, resultado de disciplina, obediência e compromisso espiritual coletivo, mantido ao longo do tempo.


Em dezoito de março de dois mil e vinte e um, sua missão terrena se concluiu. A ausência física da matriarca não significou ruptura, mas passagem, seu legado permaneceu vivo nas práticas, na memória e na ética do terreiro, demonstrando que lideranças verdadeiras ultrapassam a biologia e se afirmam na permanência histórica, construída coletivamente por aqueles que seguem seus fundamentos espirituais, morais, coletivo e ancestrais.


Hoje, sob a condução de Mãe Gardênia d’Iansã, herdeira espiritual, escolhida a dedo pela fundadora, o Terreiro Jesus Maria José segue firme rumo aos setenta anos. A continuidade revela que a história não se encerra com a morte, mas se renova quando a missão é compreendida, assumida e transmitida com responsabilidade, coragem e fidelidade ao sagrado, mantendo vivos os ensinamentos do Rei dos Índios para as futuras gerações, guardiãs da memória ancestral coletiva.


Texto: Filho de Pemba

Foto: Arquivo Instituto Mãe Balbina

 


[1] GEMINI. Mãe Balbina, A Flecha que o tempo não quebrou. 2026. 1 imagem gerada por inteligência artificial. Disponível em: https://gemini.google.com/. Acesso em: 19 jan. 2026.

[2] RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 4. ed. São Paulo: Global Editora, 2022, p. 238.

 
 
 

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